quarta-feira

maastrichtrichtricht

12 de Março.
Quarto do Lucas.

o céu está naquele limbo entre o dia e a noite, eu estou sentada num passeio à porta da segunda melhor pizzaria da Holanda. está cheia de pessoal novo que espera (ou melhor, desespera) com o cheiro da comida no forno. os donos trouxeram-no de Itália. não está calor nem frio, está perfeito. sinto-me feliz como há muito tempo não sentia. bicicletas passam rua acima e rua abaixo, os carros são tão poucos e a felicidade que isso me traz me surpreende. tudo me parece mais bonito e um carinho imenso inunda-me, um amor onde o que passou não importa mais. sinto que é Verão. um lugar de estacionamento onde três pessoas tentam parar e só a última consegue. a cidade é linda, sinto-me num filme a cada passo que dou, tudo é tão cinemático. as pessoas de bicicleta, os parques cheios de gente ao Sol. as senhoras que fumavam de uma shisha enorme sentadas num banco com um carrinho de bebé. a família com dois meninos com uma camisola de lã azul preta e branca que me faz lembrar a Estónia, com uma coluna a bombar techno (e os pequenos com óculos de sol pretos freneticamente dançando). lembro-me das três raparigas na noite em que chegámos, duas numa bicicleta e outra noutra, que riam e falavam alto pela noite fora numa ruela pequenina pequenina, debaixo de uma chuva ainda mais pequenina. campainhas "sorry guys" gargalhadas "damn you are faster walking than us" mais gargalhadas e cabelos a esvoaçar, o som de ser feliz. agora estamos no sótão, jogamos:
º cada pessoa escreve 4 palavras. 
º cada pessoa tira um papelinho.
1ª fase: a pessoa diz sinónimos
2ª fase: mímica
3ª fase: sons
4ª fase inventada: fazemos caras.

já comemos pizza e todos estão com cara de sono. o Lutz com a mão na cara e a Oli olhando para o tecto.


sexta-feira

solsolsol




qué ganas tengo del verano. y qué bonito es el castellano

quarta-feira

a medio de abril


11.04
tudo tem estado estranho como de costume. na sala estão amigas da Monika. ontem foi noite de Red Emperor. "did you do something stupid yesterday?" "well... yes, of course."
tenho saudades de fazer algo estúpido. saudades sem vontade, não me tenho mexido. vejo tantos filmes que me estou a fartar de cinema - mentira, isso não acontece. mas estou a fartar-me de ver tantos filmes. vejo e faço, não dos bons, para inglês ver, mas aqueles que se repetem na tua cabeça cena após cena, sempre a mesma cena. toda a minha vida anda à roda de filmes. filmes e saudade de coisas que fazia e das que não fiz. gostava que Cortazár me escrevesse umas instruções de como seguir aqui.

12.04
apresentações são uma seca. senti borboletas na barriga como não sentia há algum tempo e agora tenho demasiada adrenalina a cavalgar-me nas veias para me concentrar no rapazinho que olha para o seu papel e nos diz isto e aquilo sobre a globalização nas Filipinas. voltei ao colégio, a distância faz bem para respirar, bicho precisa de espaço para bater as asas. é quase verão aí mas aqui nevou ontem, nevou e fez-me sorrir. a cada floco preso nas pestanas, pensava mais e mais no quanto vou ter saudades daqui, mais uma vez as saudades. não há cervejas por duas semanas, é a desvantagem de riscar a pele para sempre. ou quem sabe, uma não há-de fazer mal.

domingo

a i r




it has been hard. confusing. tudo se vai fazendo a custo, ou nem tudo. comi a horas, meti o rolo na máquina, escrevinhei algumas coisas. tanta merda para fazer, penso e repenso. mas, menos mal, já se fez algo. o sol vai dando ares da sua graça, no chão ainda tudo está morto. primavera, não demores em chegar. ando e ando e ando. berlim não é assim tão fixe.

sexta-feira

genau



nada nada nada. 
nada faz sentido. e o quão reconfortante isso é. ver as coisas por aquilo que elas são. paz. não querer nada.
nada nada nada. 
a cada segundo somos um diferente.

domingo

lismos




os dias passam e eu não sei o chão que piso. sinto-me bem, às vezes. outras vezes não. e na maior parte do tempo não me sinto. o bicho cá dentro cresce e eu abafo-lhe os gritos que me dizem para ficar sozinha, para fazer como os elefantes. il faut faire comme les éléphants, quand ils sont malheureux ils partent. they vanish.  não sei quanto mais tempo conseguirei contê-lo. a surdina é uma solução-penso-rápido quando consegues ler-lhe os lábios e desmorona-se em menos tempo que o tempo que o meu chá levou a arrefecer.
perco o controlo. perco o controlo, uma e outra vez. sou o que não quero ser e tenho de viver comigo. todos os dias, todas as noites. tenho de viver contigo, tens de viver comigo. não sou o que quero ser. não sou quem sou e não sei se o sabes. espero que sim e desejo que não. puxo e empurro. eu não sei o chão que piso. tenho os bolsos cheios de pedras mas apenas as suficientes para o corpo se afundar. a cabeça mantém-se à tona mas o oceano abraça-me pelo peito com a força de mil homens. não consigo respirar. eu não sei o chão que piso. não hoje.

shoo, fly

cinco dias passados na cidade-eterno-amor. dois dias e meio a percorrê-la. tinha saudades tuas, Lisboa. um vegetariano divinal, dias que começam mais cedo que o habitual, a casa da minha irmã, dormir no sofá, copos de tinto aqui e ali. 

no dia em que cheguei estava nervosa.

conheci a Ieva num hostel em Vilnius, ela estava a trabalhar lá há uns meses, voltou à Lituânia para conhecer as suas raízes. vinte e um anos com mais vida dentro que os meus vinte e quatro. lituana e americana por alguns tempos. sempre me interessei por artistas quase mais do que pela sua arte. mas depois há pessoas que são arte e ela é uma delas. a maneira relaxada como encara a vida, o notebook de memórias, os sonhos escritos após o acordar, meias e sandálias, as trips em dias passados, o ukulele e a maleta de vime. "perguntaram-me no aeroporto se trazia um gato". é, há pessoas que são arte.

admirava-a e às suas curtas de longe, pelo facebook como seria de esperar. na semana passada recebi uma mensagem. "hi :) are you in lisbon?" ela vinha a Portugal, não tinha onde ficar e estava cansada da vida de hostéis. receber gente em casa sempre me deixa feliz, e há sempre lugar para mais um onde quer que estejamos. combinámos e o nervoso miudinho veio à tona. há pessoas que são arte.

sempre que penso que irei passar tempo com pessoas assim, não consigo evitar o desconforto que precede tais dias. penso que não sou suficiente, que não terei assunto interessante, que acabarei por acenar com a cabeça e não dar nada de mim. pareço tão pouca, mesmo que não o seja. afinal de contas no fim somos todos feitos da mesma carne, os nossos corações batem todos da mesma maneira. a nossa mente, essa pinta com diferentes cores; mas isso não nos pode deixar inseguros. temos de pensar no que podemos partilhar, no que podemos aprender. ela diz ser uma pessoa que gosta muito mais de ficar em casa em vez de sair. ficou na quarta até às três a ver um episódio de mr. robot.

tinha saudades tuas, Lisboa. mas quando te vi, te estranhei.
o amor continua cá mas estamos como duas estranhas que se conheceram a fundo um dia.
estás igual mas diferente e eu igualmente diferente estou.

uma tarde infinita no pátio da casa independente. mais arte personificada encontrou caminho para a minha vida neste crepúsculo. a Emelia tem uns olhos castanhos tudo menos banais e um gorro que me fez lembrar o wally. é designer, tem um namorado baterista. "o Charlie ia adorar este bar". ambos são adoráveis. é amiga de uma amiga minha e está de visita. as quatro, tinto, uma mesa e histórias e mais histórias.

Lisboa, voltar a ti foi estranho; pareces parada no tempo enquanto eu volto com a sensação que passaram mil anos. mas tardes assim são o que me faz perceber que parte do meu amor por ti reside naqueles com quem te divido. "you can't really be grumpy in Lisbon for too long".

ela tem razão.
continuo a te estranhar mas não me assusto mais com isso.

não fui a concertos, que era o que me puxava a voltar. seis meses sem me perder numa sala ao som de uma banda qualquer pareceram infinitos. sexta-feira 13, gigs espalhados pela cidade. fui ao cinema pegar um blockbuster qualquer e ouvir uns putos a ser putos. o mais bonito é que isso não me irritou, ou pelo menos irritou menos que aos "shius" que pairavam no ar constantemente. são crianças a ser o que são e isso fez-me sorrir no escurinho do cinema. depois dormi. dormi descansada.

não sabia muito bem como começar aqui. que palavras te dizer. a minha mania de querer que seja sempre tudo à hora certa, tudo no tom certo. mas apercebo-me. não está tudo - está confuso - ainda me preocupo se está bom. se chama gente. mas tento não o fazer. não interessa. "estamos onde estamos como estamos". por agora, estou aqui.

e isso basta.
olá, mundo.


(caixinha digital de tesouros)


*este álbum da Nala Sinephro ⋆.˚🦋༘⋆✮⋆˙

*Félix Vallotton

*Shida Sahabi, Hania Rani e Nils Frahm

*as playlists da Anne Pfaff