aqui aprendi que posso ser o que nunca pensei ser.
aqui aprendi que afinal é fácil ser uma pessoa de nasceres do sol.
especialmente quando o Sol começa a nascer às 03:29
terça-feira
o meu corpo continua tenso como na maior parte dos dias. a minha vida como a conheço está a chegar ao fim, dentro de 9 dias a Monika e a Loreto vão voltar para uma outra casa, uma casa diferente da que dividimos nos meses passados. uma casa que estará certamente mais arrumada, uma casa onde a luz não falha a cada dois dias, uma casa onde todas temos uma cama porque não há quem parta a da Oli numa festa qualquer. uma casa longe da nossa casa.
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é um adeus à comuna. aos livros partilhados. às bananas sem dono, sempre propriedade comum. ao som baixinho do ukulele vindo do quarto, quando a Monika tenta conjugar cordas de nilon com cordas vocais. aos que acabavam por ficar no sofá depois de uma ou outra festa porque afinal o Karu é longe para caramba às 4h da manhã. à abóbora, a quem dissemos um adeus há algum tempo atrás. às rajadas de limpeza que poucas horas depois pareciam nunca ter acontecido. ao regular "temos de mandar um mail ao Heino!". às viagens proibidas de elevador depois das 23h, quando o vinho te faz pensar que as tuas pernas pesam o dobro. às conversas sérias à mesa sobre feminismo, consumismo e vinte outros ismos, que te deixam a pensar no quão bom é viver com gente assim. às conversas a brincar sobre relações, couchsurfers loucos, stresses de exames e histórias da noite anterior. ao não saber umas das outras quando andamos por aí a viajar. às procrastinações de tardes passadas no sofá pelas quais não te sentes mal porque há sempre alguém que está a fazer o mesmo. aos "devias ver esta série" ou "vamos ver este filme?". é um adeus à comuna, que no fim de contas foi mais uma de nós, com a sua personalidade marcada e truques aqui e ali. estou grata por tudo o que se passou dentro destas quatro paredes, decoradas com posters roubados, lembranças, escritos e sítios por onde passámos. um bocadinho de nós fica aqui.
bless this mess
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Na minha escola, as casas de banho são unisexo e é a coisa mais natural do mundo. Cada pessoa tem a sua "cabine" por isso, nem se mete um problema de privacidade.
o céu está naquele limbo entre o dia e a noite, eu estou sentada num passeio à porta da segunda melhor pizzaria da Holanda. está cheia de pessoal novo que espera (ou melhor, desespera) com o cheiro da comida no forno. os donos trouxeram-no de Itália. não está calor nem frio, está perfeito. sinto-me feliz como há muito tempo não sentia. bicicletas passam rua acima e rua abaixo, os carros são tão poucos e a felicidade que isso me traz me surpreende. tudo me parece mais bonito e um carinho imenso inunda-me, um amor onde o que passou não importa mais. sinto que é Verão. um lugar de estacionamento onde três pessoas tentam parar e só a última consegue. a cidade é linda, sinto-me num filme a cada passo que dou, tudo é tão cinemático. as pessoas de bicicleta, os parques cheios de gente ao Sol. as senhoras que fumavam de uma shisha enorme sentadas num banco com um carrinho de bebé. a família com dois meninos com uma camisola de lã azul preta e branca que me faz lembrar a Estónia, com uma coluna a bombar techno (e os pequenos com óculos de sol pretos freneticamente dançando). lembro-me das três raparigas na noite em que chegámos, duas numa bicicleta e outra noutra, que riam e falavam alto pela noite fora numa ruela pequenina pequenina, debaixo de uma chuva ainda mais pequenina. campainhas "sorry guys" gargalhadas "damn you are faster walking than us" mais gargalhadas e cabelos a esvoaçar, o som de ser feliz. agora estamos no sótão, jogamos:
º cada pessoa escreve 4 palavras.
º cada pessoa tira um papelinho.
1ª fase: a pessoa diz sinónimos 2ª fase: mímica 3ª fase: sons 4ª fase inventada: fazemos caras.
já comemos pizza e todos estão com cara de sono. o Lutz com a mão na cara e a Oli olhando para o tecto.
11.04
tudo tem estado estranho como de costume. na sala estão amigas da Monika. ontem foi noite de Red Emperor. "did you do something stupid yesterday?" "well... yes, of course."
tenho saudades de fazer algo estúpido. saudades sem vontade, não me tenho mexido. vejo tantos filmes que me estou a fartar de cinema - mentira, isso não acontece. mas estou a fartar-me de ver tantos filmes. vejo e faço, não dos bons, para inglês ver, mas aqueles que se repetem na tua cabeça cena após cena, sempre a mesma cena. toda a minha vida anda à roda de filmes. filmes e saudade de coisas que fazia e das que não fiz. gostava que Cortazár me escrevesse umas instruções de como seguir aqui.
12.04
apresentações são uma seca. senti borboletas na barriga como não sentia há algum tempo e agora tenho demasiada adrenalina a cavalgar-me nas veias para me concentrar no rapazinho que olha para o seu papel e nos diz isto e aquilo sobre a globalização nas Filipinas. voltei ao colégio, a distância faz bem para respirar, bicho precisa de espaço para bater as asas. é quase verão aí mas aqui nevou ontem, nevou e fez-me sorrir. a cada floco preso nas pestanas, pensava mais e mais no quanto vou ter saudades daqui, mais uma vez as saudades. não há cervejas por duas semanas, é a desvantagem de riscar a pele para sempre. ou quem sabe, uma não há-de fazer mal.